quarta-feira, 29 de junho de 2011

Ou um, ou outro

                      
                 Descobri esta noite, num sonho,
                 Muito pouco, ou quase nada
                 Que a realidade que conheço
                 É só uma história sonhada
                 Apenas não sei por quem
                 Nem de onde o sonho vem
                 Ou sonha Deus
                 Ou sonho eu
                 Ou sou um sonho de Deus
                 Ou Deus é um sonho meu








sábado, 4 de junho de 2011

E se ela voltar? - Que música eu vou cantar?

(ou  Cry Me a River - não sei cantar essa canção)


Tem músicas que a gente canta fácil, cantarola e guarda sempre num cantinho da memória, pra lembrar de repente. Às vezes no chuveiro, às vezes bebendo vinho, ou às vezes nada: simplesmente parando e deixando vir a canção. Aliás, acho que é nesses momentos que ela vem mais forte.

Ocorreu-me, há pouco, que uma das canções de que mais gosto, e da qual mais me lembro, é a lindamente ressentida Cry Me a River, um clássico da música dita “americana”, que fala daquele gostinho apurado de serena vingança, ao qual, por vezes, desejamos reservar direitos,quando a pessoa amada saiu da vida da gente, seja de forma repentina, tempestuosa ou (quase sempre achamos que) injusta e insensível. Mas retorna assim mesmo ao local do crime, depois de haver descoberto que... bem... você sabe... [pigarro – ajeite a gola] ...aquilo de “eu te amo”, ou “ainda te amo”, ou mesmo “jamais deixei de te amar”... essas coisas que de vez em quando a gente adora, mas às vezes teme ouvir...

— Metiiiiiido, diria ela. Aquela mesma, a mais recente a me deixar à deriva. Diria, aliás, com o apoio de outra, veterana, também muito querida, que recentemente me chamou de “narciso”, ao comentar minha crônica Apaixonei-me (http://eporfalarnisto.blogspot.com/2011/04/apaixonei-me.html), só porque eu falei das mulheres e meninas que me amaram (ela ignorou o e outras que nem tanto ,que acrescentei a esse discutível narcisismo)...

Trilha sonora para o tema da revanche

Bem, o fato é que a reação de cada um – esteja ou não ainda motivado por quem o abandonou sem a menor cerimônia – vai variar muito. Afinal, cada história é uma história. Uns verão essa volta como algo incômodo. Como um fantasma retornado do além, para assombrá-los mais uma vez. Outros, como a resposta às suas preces, às suas fantasias mais improváveis, ou até mesmo como uma possível prova de que Deus existe. Os mais soberbos verão a arrependida voltar rastejando, humilhando-se, por mais altiva e serena que ela na verdade esteja, mesmo “reconhecendo o seu erro”. Mas se houver aquele espírito de revanche, de “ela agora vai escutar”, de “chegou a minha vez de lhe dizer umas coisas”, cada um de nós pode, pelo menos, ter a sua própria trilha sonora. É só escolher. Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, por exemplo (gravação do próprio, da Bethania, ou, pasmem!, na belíssima interpretação de Agnaldo Timóteo); Você Abusou, de Antonio Carlos e Jocafi (com eles mesmos, ou Maria Creuza e Vinícius de Morais); Se você pensa, de Roberto e Erasmo Carlos (com Roberto, ou Lulu Santos, ou, mais recentemente, Pitty, ou Jota Quest), e outras, menos votadas. Mas não adianta. São todas belíssimas, todas super-apropriadas pra dizer as coisas, desafogar a alma, desabafar, falar assim, na lata, fazer a pessoa escutar, ouvir... Mas só me vem Cry Me a River, fazer o que...

E olha que a canção é antiga. Foi composta entre o final dos anos 1940 e o começo dos 1950, para que Ella Fitzgerald a cantasse num filme ambientado nos loucos anos 1920. Mas a diva acabou não cantando, e a primeira artista a realmente gravar a música foi Julie London. Ainda assim, há muito tempo atrás, em 1955, para o filme Sabes o que Quero (The Girl Can't Help It), de 1956, em que a própria Julie atua, ao lado de Tom Ewell – o mesmo de O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch), com Marylin Monroe e, bem mais tarde , muito mais tarde, já nos 1970s, o senhorio do policial Baretta, no seriado televisivo de mesmo nome – que estrelou o filme, com Jane Mansfield.

Alguém pra me dar o tom

Não sei vocês, mas pra mim é isso mesmo: Cry Me a River é a melhor resposta, o melhor desabafo que eu poderia expressar, diante de quem me abandonou, mas agora voltasse, sem saber o que fazer, cheia de santo-antoninho-onde-te-porei, tentando voltar às boas. Claro que eu não pagaria o mico de sair cantando Now you say you're lonely / You cry the whole night through / Well, you can cry me a river, cry me a river / I cried a river over you. Mas como música de fundo, e como tema da conversa, quem sabe?

A mim, no entanto, não basta o tema. Eu precisaria do tom. Não me aventuro a sair assim, dando essa bronca toda, fazendo essa cobrança, cheio de moral, não sei se conseguiria. Preciso de alguém que me desse não apenas a canção, mas a forma de expressar o que ela diz, o clima. Então, fico pensando: qual seria o intérprete em que eu me inspiraria, para dar o tom, a marca, a interpretação dessa letrinha danada de revanchista, pra desafogar a alma? Bem, de tanta gente que gravou Cry Me a River até hoje, especialmente três me parecem, por assim dizer, donos da bola, ou seja, artistas habilitados a realmente dar o recado como eu sinto que se deveria dar: Julie London, Barbra Streisand e Joe Cocker [veja os vídeos ao final do texto]. Outros artistas, depois deles, também gravaram a música, como Michael Bublé e Denise Welch. Mas esses três aí são os melhores momentos de Cry Me a River, pode acreditar.

A gatíssima Julie London – a primeira a gravar – dá o tom da tristeza. Ela canta o que a gente sente, ou como se sente: perdido, sem força, como se duvidássemos da realidade do que aconteceu, como se tudo não fosse senão um sonho, um sonho mau, do qual não conseguimos acordar.

Já Barbra Streisand... olha, ninguém melhor do que ela pra dar o tom magoado de Cry Me a River. Ela canta irônica, ressentida, joga na cara mesmo, e faz do que a letra tem a dizer a sua melhor resposta, a sua vingança, o seu desabafo.

E Joe Cocker... O que dizer dele? Bem... só agora, escrevendo aqui, é que eu me dei conta de que... não sei! Tantos são os tons, tantas são as matizes da emoção em Cry Me a River, com Joe Cocker, que a princípio, eu não saberia o que fazer com isso. Ele canta muito doido. Revoltado, mas forte. Sofrido, mas como quem se garante e empresta à sua dor uma perplexidade de quem diz Chore muito, eu já chorei muito por você, mas venha pra festa assim mesmo. A autoridade do maestro Leon Russel (one, two, three, four!), a alegria das vocalistas e, sobretudo, o sábio desvario de Cocker – que me dá a idéia de que o mais importante de tudo é tudo ter vivido – confundem-me, mas me fascinam.

Só que... quer saber? Eu não consigo cantar essa canção. Nem mesmo simbolicamente. Nem me inspirar nela, pra dizer umas verdades a quem possa voltar, tentando reconciliação. Como mandar alguém chorar um rio inteiro, se eu mesmo choro hoje cada vez menos por elas, e quase chego a me sentir curioso diante do meu próprio sofrimento? Como dizer Agora você diz que me ama / então prove / chore um rio inteiro / porque eu chorei um rio por você, se eu não costumo acreditar nas provas que se apresentam para as coisas impossíveis de serem provadas?

Melhor é aceitar que não conseguiria cantar Cry Me a River para uma amada arrependida que me procurasse em busca de nós dois. Acho que seria forçar a barra. Talvez usar de soberba, ou de narcisismo, vá lá que seja. Ou talvez eu simplesmente não tenha essa cara de pau toda. Mas, convenhamos, se eu mudasse de idéia, minha referência seria o sofrimento transformado em experiência. A dor em um convite para a festa. Uma festa bem barulhenta, com coristas, guitarras, teclados, um maestro de cartola e uma canção acelerada e louca para celebrar tudo sem ressentimento. Eu não saberia o que fazer dessa história toda. Talvez não conseguisse dizer-lhe umas boas, ou jogar na cara, ou qualquer outra coisa por aí.  Mas, na verdade,  nem sei se desejaria isso mesmo. Só sei que, a essas alturas, seria tudo muito, muito divertido.

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Os três melhores momentos de Cry me a river


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Julie London, cantora e atriz – a fantasia de nove em cada dez adolescentes dos 1950s – canta Cry Me a River num tom triste e como uma visão do principal personagem do filme Sabes o que quero, que tenta fugir da lembrança de uma de suas maiores desilusões amorosas

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Barbra Sreisand canta a canção, ressentida e irônica, num programa da TV americana, por volta de 1966


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Joe Cocker dá a sua versão única, numa das apresentações de sua turnê com a companhia Mad Dogs & Englishmen, em 1970.