terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Quero dar-te um amor




Quero dar-te um amor que te espante,
que tanto seja e tanto cante,
que surpreenda ao constatares
a aventura nunca vista;
e que só quando radicalmente o navegares,
eu em ti de fato exista.


Um amor que te comova,
te envolva o corpo e abrace a alma;
com toda calma desespere
a ausência tua,
a dor que fere, luminosa,
desejo antigo pela amada nua.


Dar-te um amor definitivo,
com nova história e antigas lendas;
que só com isto tu entendas
que somos um, realidade;
e que em nós, tudo é um ponto,
e que um ponto é eternidade.



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Foto © Paulo Sallorenzo

O poema foi publicado anteriormente
na Revista Ilustrada (http://www.sallorenzo.com.br/)
de dezembro,onde o fotógrafo partilha conosco a sua fotografia,
verdadeira poesia visual. Sallorenzo anima também
um inspirador blog fotográfico, que você pode acessar em
http://sallorenzoluzimagem.blogspot.com


domingo, 27 de novembro de 2011

Teoria da conspiração:


a sociedade secreta dos médicos





Num mundo como o nosso, em que cada coisa supostamente clara, cada transparência parece ter algo de secreto ou estranho por trás, as teorias da conspiração desempenham um papel de ponta. Pelo menos como uma forma de se arrumar explicações pra coisas que a gente não consegue entender. Dentre as mais fascinantes teorias da conspiração que conheço, há uma que envolve os médicos, e que fiquei conhecendo recentemente.

Médicos sempre foram intrigantes para mim. Aquelas figuras de branco, cheias de autoridade, sabendo sobre a gente um monte de coisas de que a gente nem desconfia, alternando frases lapidares com longos e simbólicos silêncios...

Claro, a expressão reverente de minha avó e de minha mãe, enquanto o doutor as examinava — ou a um de nós, quando éramos crianças — sempre me pareceu meio exagerada, quase religiosa. E era coisa da cultura da época mesmo. Um pouco como a admiração do analfabeto, diante daquele que lê “de carreirinha”. Mas eu custei a perceber que também tinha por eles um certo temor respeitoso do qual não me dava conta antes, e que aquilo me causava algum incômodo. Aqueles papos entre médicos, que a gente escutava sem querer, quando um pedia a opinião do outro sobre um determinado problema, só serviam pra piorar as coisas. Não basta o jargão, ainda tinham de complicar? “Há indícios de alopecia androgênica”, dizia um. “Não tenha dúvida, vai ter de fazer uma laparo”, sentenciava outro. Ou “não se pode desprezar uma possível glicosúria”, considerava um terceiro. Frases soltas que a gente colhia aqui e ali, e ficava com a impressão de que eles, apesar de salvarem vidas, falavam de fato uma língua morta.

Teoria da Conspiração

Com os anos (e a idade), me esqueci um pouco disso tudo. Achei que, enfim, estava exagerando. Médicos passaram, então, a ser... médicos! Gente que estuda pra consertar gente, e para adiar o máximo possível o descarte de nossas carcaças, mas que são humanos, limitados em seus poderes, como todo mundo. Aquela visão incômoda deles como personagens até misteriosos, quase sobre-humanos, que viam através da gente, acabou se esvaindo pelo caminho, até não restar mais nada daquilo.

Bem, em termos. Recentemente fiquei a par de uma teoria da conspiração que renovou meus temores a respeito dos homens e mulheres de branco. Alguém me segredou ao ouvido que eles, claro, não são seres sobrenaturais, mas integram uma temível sociedade secreta internacional, encarregada não apenas de curar, ou salvar vidas, mas também, dentre outras coisas, de castigar-nos por nossas faltas e nosso pouco caso com a saúde. Essa sociedade, segundo a teoria, seria um emaranhado de células secretas, misteriosas câmaras subterrâneas e corredores sombrios e clandestinos, que, na superfície, manifestam assépticas clínicas, consultórios, hospitais (às vezes não tão assépticos assim), laboratórios e até setores significativos da indústria farmacêutica. Tudo fachada...

A princípio achei exagero. Mas meu interlocutor tinha excelentes argumentos. “Já reparou como os exames que os médicos nos solicitam são quase sempre uma fonte de sofrimento”? Não pude deixar de levar em consideração aquelas palavras. Isso é castigo mesmo... Quando me lembro dos exames preventivos das mulheres, por exemplo, afasto rapidamente aquelas imagens da minha imaginação, temendo pesadelos à noite. Sempre que elas me narram como se lhes apertam, amassam os seios, eu peço pra mudarem de assunto. E nós, homens de mais de cinqüenta, que temos de fazer o nosso preventivo anualmente? Antes, havia apenas a constrangedora prática dos médicos, entrando com o dedo onde não são chamados, para examinar a próstata pelo método Braille...Tá, tá certo, não demora tanto tempo assim, é coisa rápida, sem dúvida. Mas já poderia ter sido abolido, com as novas tecnologias, os exames químicos e tudo mais que está agora à disposição dos urologistas. Hoje em dia, eles podem fazer uma leitura quase perfeita de nossa situação hormonal, por exemplo — por exames clínico-químicos. Ou mesmo dar uma sacada no jeitinho da próstata, que a ultrassonografia revela claramente e sem maiores problemas. Pra que o dedo, gente? Não adianta, a prática Braille continua. “É ainda muito confiável”, asseguram maleficamente os doutores...

E olha que nem precisava mais do dedo, para castigar o infeliz. A tecnologia atualmente em uso pelo urologista já traz um duplo avanço: tanto mostra claramente a próstata, quanto castiga exemplarmente o paciente. Ficar uma hora sem urinar, depois de haver ingerido cinco ou seis copos com água, um imediatamente seguido do outro, sem intervalos, tanto facilita a observação da próstata (pela dilatação da bexiga, sei lá!), quanto traz indizível sofrimento e exemplar castigo para o paciente, algumas vezes causando conseqüências surreais, que não ficaria bem examinar aqui.

A tecnologia aperfeiçoa tudo...

A coisa da ressonância, então... Já viu o que é você entrar naquela máquina, com o ferreiro do inferno martelando aquela lataria, e ainda sem poder se mexer? Se rolar uma coceirinha, corre o risco de ser advertido. Se não for chegado a dormir fechado num caixão, como Drácula, aí então a coisa piora ainda mais. Tem gente que nunca entra numa engenhoca daquelas. E há exames ainda mais cascudos, como aquele em que o proctologista (por que alguém escolhe uma especialização dessas, meus deuses?) examina o você-sabe-o-que enfiando literalmente uma câmera, sei lá se fazendo algum documentário tipo Nat Geo explorando os submundos do Umbral, ou algo assim.
´"(...) o pobre médico sofreu pesadas ameaças (...)"

E há ainda muitos outros exemplos. Alguns deles na medicação que os homens e mulheres de branco receitam. Não sei se a indústria farmacêutica tem a sua própria sociedade secreta, ou se é um ramo avançado da misteriosa sociedade dos doutores. “Não leia a bula!”, advertem alguns deles. Aí você espera chegar em casa e, !, vai ler a bula. Imprudente paciente! Os eventuais efeitos paralelos desses remédios maravilhosos variam desde prosaicas diarréias, até convulsões, cegueiras temporárias e perda de memória e de cabelo. Perda de dinheiro não, que a maioria deles já traz isso embutido no preço pra gente, e nem precisa constar na bula.

O braço acadêmico da misteriosa sociedade

Meu interlocutor — que prefere manter-se no anonimato, pelo menos até o seu próximo check-up anual — me revelou algo ainda mais espantoso. Um aspecto do ensino em medicina que, ao que tudo indica, é a cereja no bolo da rotina prática médica. Na fase final dos estudos, no último semestre da faculdade de Medicina, eles freqüentam aulas de uma cadeira que é obrigatória e absolutamente secreta: Anticaligrafia. As aulas constituem-se, praticamente, em exercícios para piorar a letra de quem quer que tenha cometido a imprudência de tentar a carreira de médico, tendo letra legível. Eles aprendem a ter letra de médico, aquela mesma com que escrevem as receitas e pedidos de exame, que precisamos fazer decifrar na farmácia ou no laboratório, onde há especialistas nesse tipo de criptografia.
“(...) a sociedade secreta tudo sabe, tudo vê (...)” 

Há tempos, meu cardiologista revoltou-se contra esse estado de coisas e, num gesto comovente de solidariedade para com seus pacientes, passou a fazer tudo pelo computador. Até mesmo as receitas. Tinha, inclusive, um programa especial pra isso... Mas a sociedade secreta é onipresente. Tudo sabe, tudo vê. De repente, de uma hora pra outra, ele voltou à antiga prática da letra ininteligível. Quando perguntávamos o porquê daquilo, sempre desconversava. Diz o meu interlocutor que o pobre médico sofreu pesadas ameaças da Sociedade, que iam desde promessas de duas horas sem urinar, depois de doze copos d’água, a três horas ininterruptas dentro da máquina de ressonância  magnética, sob a égide do ferreiro do inferno...



Entendi que estava sendo ridículo

Mas... quer saber? Aos poucos percebi o tanto de bobagem que eu vinha falando, com essa história de sociedade secreta, teoria da conspiração e tudo mais. Pra falar a verdade, eu nunca acreditei muito nisso. Foi má influência de Julio, meu irmão mais velho. É ele o meu misterioso “interlocutor”, e foi ele que inventou essas bobagens, só de onda, pra provocar minhas neuroses e pirar a minha cabeça. Brincadeira de mau gosto em cima da minha paranóia.

Saquei isso há pouco tempo, quando conversei com uma querida amiga, ela mesma médica, a respeito dessa temível teoria da conspiração, tecida em torno dos médicos. Foi bom, porque ela me tranqüilizou, e seu bom humor me fez ver o quanto eu estava paranóico. Cheguei a me achar ridículo. Ela riu muito e fez piada com aquilo, dizendo que até que não seria má idéia, que eles, médicos, precisavam mesmo domar a gente, porque nós éramos muito irresponsáveis com a saúde, etc.

Mas quando eu entrei no detalhe da cadeira de Anticaligrafia, ela ficou séria de repente. Simulou um abraço, abriu um sorriso amarelo e forçado, e segredou ao meu ouvido:

Por favor, mude de assunto. Nós não estamos autorizados a falar sobre isto...

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Créditos das ilustrações (por ordem)


Saul and the Witch of Endor, de Benjamim West. Detalhe
— Coubert, sem título
Egg, de Odilon Redon



quarta-feira, 29 de junho de 2011

Ou um, ou outro

                      
                 Descobri esta noite, num sonho,
                 Muito pouco, ou quase nada
                 Que a realidade que conheço
                 É só uma história sonhada
                 Apenas não sei por quem
                 Nem de onde o sonho vem
                 Ou sonha Deus
                 Ou sonho eu
                 Ou sou um sonho de Deus
                 Ou Deus é um sonho meu








sábado, 4 de junho de 2011

E se ela voltar? - Que música eu vou cantar?

(ou  Cry Me a River - não sei cantar essa canção)


Tem músicas que a gente canta fácil, cantarola e guarda sempre num cantinho da memória, pra lembrar de repente. Às vezes no chuveiro, às vezes bebendo vinho, ou às vezes nada: simplesmente parando e deixando vir a canção. Aliás, acho que é nesses momentos que ela vem mais forte.

Ocorreu-me, há pouco, que uma das canções de que mais gosto, e da qual mais me lembro, é a lindamente ressentida Cry Me a River, um clássico da música dita “americana”, que fala daquele gostinho apurado de serena vingança, ao qual, por vezes, desejamos reservar direitos,quando a pessoa amada saiu da vida da gente, seja de forma repentina, tempestuosa ou (quase sempre achamos que) injusta e insensível. Mas retorna assim mesmo ao local do crime, depois de haver descoberto que... bem... você sabe... [pigarro – ajeite a gola] ...aquilo de “eu te amo”, ou “ainda te amo”, ou mesmo “jamais deixei de te amar”... essas coisas que de vez em quando a gente adora, mas às vezes teme ouvir...

— Metiiiiiido, diria ela. Aquela mesma, a mais recente a me deixar à deriva. Diria, aliás, com o apoio de outra, veterana, também muito querida, que recentemente me chamou de “narciso”, ao comentar minha crônica Apaixonei-me (http://eporfalarnisto.blogspot.com/2011/04/apaixonei-me.html), só porque eu falei das mulheres e meninas que me amaram (ela ignorou o e outras que nem tanto ,que acrescentei a esse discutível narcisismo)...

Trilha sonora para o tema da revanche

Bem, o fato é que a reação de cada um – esteja ou não ainda motivado por quem o abandonou sem a menor cerimônia – vai variar muito. Afinal, cada história é uma história. Uns verão essa volta como algo incômodo. Como um fantasma retornado do além, para assombrá-los mais uma vez. Outros, como a resposta às suas preces, às suas fantasias mais improváveis, ou até mesmo como uma possível prova de que Deus existe. Os mais soberbos verão a arrependida voltar rastejando, humilhando-se, por mais altiva e serena que ela na verdade esteja, mesmo “reconhecendo o seu erro”. Mas se houver aquele espírito de revanche, de “ela agora vai escutar”, de “chegou a minha vez de lhe dizer umas coisas”, cada um de nós pode, pelo menos, ter a sua própria trilha sonora. É só escolher. Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, por exemplo (gravação do próprio, da Bethania, ou, pasmem!, na belíssima interpretação de Agnaldo Timóteo); Você Abusou, de Antonio Carlos e Jocafi (com eles mesmos, ou Maria Creuza e Vinícius de Morais); Se você pensa, de Roberto e Erasmo Carlos (com Roberto, ou Lulu Santos, ou, mais recentemente, Pitty, ou Jota Quest), e outras, menos votadas. Mas não adianta. São todas belíssimas, todas super-apropriadas pra dizer as coisas, desafogar a alma, desabafar, falar assim, na lata, fazer a pessoa escutar, ouvir... Mas só me vem Cry Me a River, fazer o que...

E olha que a canção é antiga. Foi composta entre o final dos anos 1940 e o começo dos 1950, para que Ella Fitzgerald a cantasse num filme ambientado nos loucos anos 1920. Mas a diva acabou não cantando, e a primeira artista a realmente gravar a música foi Julie London. Ainda assim, há muito tempo atrás, em 1955, para o filme Sabes o que Quero (The Girl Can't Help It), de 1956, em que a própria Julie atua, ao lado de Tom Ewell – o mesmo de O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch), com Marylin Monroe e, bem mais tarde , muito mais tarde, já nos 1970s, o senhorio do policial Baretta, no seriado televisivo de mesmo nome – que estrelou o filme, com Jane Mansfield.

Alguém pra me dar o tom

Não sei vocês, mas pra mim é isso mesmo: Cry Me a River é a melhor resposta, o melhor desabafo que eu poderia expressar, diante de quem me abandonou, mas agora voltasse, sem saber o que fazer, cheia de santo-antoninho-onde-te-porei, tentando voltar às boas. Claro que eu não pagaria o mico de sair cantando Now you say you're lonely / You cry the whole night through / Well, you can cry me a river, cry me a river / I cried a river over you. Mas como música de fundo, e como tema da conversa, quem sabe?

A mim, no entanto, não basta o tema. Eu precisaria do tom. Não me aventuro a sair assim, dando essa bronca toda, fazendo essa cobrança, cheio de moral, não sei se conseguiria. Preciso de alguém que me desse não apenas a canção, mas a forma de expressar o que ela diz, o clima. Então, fico pensando: qual seria o intérprete em que eu me inspiraria, para dar o tom, a marca, a interpretação dessa letrinha danada de revanchista, pra desafogar a alma? Bem, de tanta gente que gravou Cry Me a River até hoje, especialmente três me parecem, por assim dizer, donos da bola, ou seja, artistas habilitados a realmente dar o recado como eu sinto que se deveria dar: Julie London, Barbra Streisand e Joe Cocker [veja os vídeos ao final do texto]. Outros artistas, depois deles, também gravaram a música, como Michael Bublé e Denise Welch. Mas esses três aí são os melhores momentos de Cry Me a River, pode acreditar.

A gatíssima Julie London – a primeira a gravar – dá o tom da tristeza. Ela canta o que a gente sente, ou como se sente: perdido, sem força, como se duvidássemos da realidade do que aconteceu, como se tudo não fosse senão um sonho, um sonho mau, do qual não conseguimos acordar.

Já Barbra Streisand... olha, ninguém melhor do que ela pra dar o tom magoado de Cry Me a River. Ela canta irônica, ressentida, joga na cara mesmo, e faz do que a letra tem a dizer a sua melhor resposta, a sua vingança, o seu desabafo.

E Joe Cocker... O que dizer dele? Bem... só agora, escrevendo aqui, é que eu me dei conta de que... não sei! Tantos são os tons, tantas são as matizes da emoção em Cry Me a River, com Joe Cocker, que a princípio, eu não saberia o que fazer com isso. Ele canta muito doido. Revoltado, mas forte. Sofrido, mas como quem se garante e empresta à sua dor uma perplexidade de quem diz Chore muito, eu já chorei muito por você, mas venha pra festa assim mesmo. A autoridade do maestro Leon Russel (one, two, three, four!), a alegria das vocalistas e, sobretudo, o sábio desvario de Cocker – que me dá a idéia de que o mais importante de tudo é tudo ter vivido – confundem-me, mas me fascinam.

Só que... quer saber? Eu não consigo cantar essa canção. Nem mesmo simbolicamente. Nem me inspirar nela, pra dizer umas verdades a quem possa voltar, tentando reconciliação. Como mandar alguém chorar um rio inteiro, se eu mesmo choro hoje cada vez menos por elas, e quase chego a me sentir curioso diante do meu próprio sofrimento? Como dizer Agora você diz que me ama / então prove / chore um rio inteiro / porque eu chorei um rio por você, se eu não costumo acreditar nas provas que se apresentam para as coisas impossíveis de serem provadas?

Melhor é aceitar que não conseguiria cantar Cry Me a River para uma amada arrependida que me procurasse em busca de nós dois. Acho que seria forçar a barra. Talvez usar de soberba, ou de narcisismo, vá lá que seja. Ou talvez eu simplesmente não tenha essa cara de pau toda. Mas, convenhamos, se eu mudasse de idéia, minha referência seria o sofrimento transformado em experiência. A dor em um convite para a festa. Uma festa bem barulhenta, com coristas, guitarras, teclados, um maestro de cartola e uma canção acelerada e louca para celebrar tudo sem ressentimento. Eu não saberia o que fazer dessa história toda. Talvez não conseguisse dizer-lhe umas boas, ou jogar na cara, ou qualquer outra coisa por aí.  Mas, na verdade,  nem sei se desejaria isso mesmo. Só sei que, a essas alturas, seria tudo muito, muito divertido.

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Os três melhores momentos de Cry me a river


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Julie London, cantora e atriz – a fantasia de nove em cada dez adolescentes dos 1950s – canta Cry Me a River num tom triste e como uma visão do principal personagem do filme Sabes o que quero, que tenta fugir da lembrança de uma de suas maiores desilusões amorosas

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Barbra Sreisand canta a canção, ressentida e irônica, num programa da TV americana, por volta de 1966


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Joe Cocker dá a sua versão única, numa das apresentações de sua turnê com a companhia Mad Dogs & Englishmen, em 1970.

domingo, 10 de abril de 2011

Será que você vai gostar?

Jessie J.

De tempos em tempos, tenho feito a pergunta acima, por meio de uma newsletter virtual de mesmo nome, que envio a alguns amigos, pra mostrar uma canção, seja ela de lançamento recente, ou coisa antiga mesmo.


Estive pensando e achei que, em vez de ficarem duas coisas separadas – o blog e a newsletter – posso colocar uma dentro do outro, e assim alcançar a um número maior de pessoas.

Então ficamos assim. O E por falar nisto... continua como um espaço dedicado principalmente à literatura, sobretudo crônicas e poesia. Eventualmente também a artigos sobre cultura, terapêuticas, comportamento, etc. E, de vez em quando, envio um boletim do Será que você vai gostar?, só pra mudar um pouco o ritmo e partilhar boa música.

O primeiro envio da newsletter vem em conseqüência de um vídeo que minha querida amiga Luciene, de Sampa, postou no Facebook.

Luciene mostrou pra gente o vídeo da genial Adele, inglesinha surgida na mesma época da explosão da pequena daimon, Amy Winehouse . Adoro as duas, embora Amy tenha um lugar de destaque pra mim, hors concours mesmo... Agora proponho pra vocês a fantástica Jessie J. . Britânica, como Amy e Adele, Jessie faz um estilo mais pop, bem diferente do sempre bem-vindo black classicão e do excelente standard de Adele, e do soberbo soul/blues/jazz desamericanizado de minha querida Amy.



Britânica, como Amy e Adele,
Jessie faz um estilo mais pop



No entanto, Jessie J. varia bastante nesse nicho pop. Bonita, simpática, às vezes cínica, outras mais gaiata mesmo, Jessie tem, sobretudo, talento e atitude. Duas canções dela estão atualmente em destaque. A primeira, Do it like a dude cujo vídeo coloco aqui, é um pouco mais pro pesado. A gaiatice da menina suaviza um pouco o clima. Vale a pena conferir. Importante ficarmos atentos também às bailarinas, na fantasia de bad girls. As performances são curtas, mas vigorosas e belas.


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O outro vídeo de Jessie J. que desejo partilhar com vocês é o da canção Price Tag, que ela gravou (e atuou, no vídeo), ao lado do rapper B.O.B. Aqui o lance é bem mais pop mesmo, e o charme gaiato da menina dá mais o ar de sua graça. Mas sempre com atitude e com uma voz que é como um pit bull: não muito “grande”, mas consistente, eficaz, forte e exuberante. Jessey!

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sábado, 26 de março de 2011

A mim...


                                              Voa até minha noite
                                                               a alma da bruxa

quinta-feira, 17 de março de 2011

Não. Não vou defender Khadafi...


Mas também não vou entrar nessa onda histérica contra o cara, que poderia se justificar, caso quem está por trás dela fosse, pelo menos, confiável.

Não que eu ache Kadhafi um santo. Longe disso. Embora eu já o tenha admirado por vários motivos, não descarto a possibilidade dele ser um ditador e/ou de ser uma pessoa cruel.

Mas cuidado com esses gestos nobres da ONU e das potências ocidentais. Querem ver? Vamos dar uma historiadinha básica...

Guerra do Golfo

Lembram? Foi uma guerra contra uma figura desprezível, sim, Saddam Hussein. Mas não custa lembrar que, antes, Saddam era amiguinho dos EUA, que davam força pra ele, para que controlasse os mujahedim da região e protegesse o petróleo contra rivais do Tio Sam. Inclusive, na guerra do Iraque contra o Irã (guerra sangrentíssima, de ambos os lados) os Estados Unidos apoiaram o Iraque e Saddam Hussein. Mas a gente fica na dúvida: qual era o verdadeiro Saddam? Aquele “bravo líder”, aliado dos estadunideses no Oriente Médio, ou o ditador sanguinário que eles mandaram enforcar alguns anos mais tarde?

Depois, aí sim, veio a Guerra do Golfo. Saddam Hussein, por cruel e ditadorial que fosse (e aparentemente era mesmo), tinha suas razões para invadir o Kwait. Na época, Hussein começava a trocar o sistema de petrodólares pelo de petroeuros, o que piorou a situação dele junto aos EUA – inimigos fraternos da então nascente União Européia - que já vinham fritando o cara e colocando de lado a velha amizade. A invasão foi justamente pelo Kwait apoiar os EUA, interferindo nos preços do petróleo, pra esvaziar Saddam. Isto equivale a uma declaração de guerra. Fora o fato de que o Iraque sempre reivindicou o Kwait como parte de seu território. Segundo essa versão, o Kwait, assim como o Líbano, seria uma invenção do Ocidente.

Duvidosa vitória

Finda a Guerra do Golfo, ficou a idéia de que os EUA Unidos haviam vencido, o que foi questionado por intelectuais dos próprios EUA, como Timothy Leary, por exemplo, que – entrevistado por Marília Gabriela, quando de sua visita ao Brasil, ainda nos anos 1990 – escutou dela uma pergunta que incluía a afirmação “tendo os Estados Unidos ganho a Guerra do Golfo”, e respondeu à minha atônita colega: — Mas quem te disse que meu país ganhou a guerra? Os Estados Unidos ganharam uma guerra contra o Iraque sim, só que foi a guerra da informação, a guerra da mídia.



Aisha, filha de Khadafi:
“Digo aos líbios e líbias de quem gosto
e que gostam de mim,
que resisto nesta casa”


Mas, ainda sobre a Guerra do Golfo, não é difícil lembrarmos daqueles garotos, pilotos dos caças e bombardeiros estadunidenses, que vinham super-empolgados dos bombardeios sobre o Iraque, tendo colocado em prática o que já vinham aprendendo desde crianças (porque adolescentes eles ainda eram), nos videogames. Voltaram curtindo, como quem ganha um jogo, já que a guerra atual é “limpa”, você não olha nos olhos do inimigo, enquanto tenta enfiar nele a espada ou a lança, como ocorria no passado. É uma guerra sem culpa. Para aqueles meninos, era como vencer num game.

Às acusações internacionais, de que os moleques e, conseqüentemente, os EUA haviam bombardeado civis, inclusive hospitais, onde já havia feridos de guerra (muitos deles crianças), respondeu-se que não. Que os EUA tinham excelência tecnológica, que os seus mísseis eram de “precisão cirúrgica” (acho que eram os “Patriot”, não estou certo), e que só foram utilizados em alvos militares e/ou estratégicos. E que mesmo que houvesse hospitais e outras instituições civis do lado dos alvos militares, eles não haviam sido e não seriam atingidos, exatamente pela “precisão cirúrgica” das bombas aéreas americanas.

Depois de dois anos, não se falava mais em Guerra do Golfo. O assunto não interessava mais nem à mídia, nem à opinião pública. Mas foi aproximadamente nessa mesma época (por volta de dois anos após o fim da Guerra), que saiu nos jornais uma notinha (eu mesmo li), mas uma notinha assim, pequetitinha mesmo, num cantinho da página, que noticiava terem sido aqueles mísseis de “precisão cirúrgica”, utilizados na Guerra do Golfo, na verdade um material em teste, pela indústria bélica dos EUA, e que havia sido considerado um fracasso tecnológico… E foi só. Não se tocou mais no assunto.


Há pouco tempo, chefes de estado de vários países
tentaram cair nas graças de Khadafi.
Ele não era mais o terrível terrorista


Então, embora a maioria das pessoas não tenha se dado conta dessa matéria (não era à toa que era pequenina, num cantinho esquecido qualquer da editoria internacional), o que ficou patente é que os EUA aproveitaram a guerra contra o Iraque para fazer do país atacado um campo de provas para seus mísseis, que acabaram ficando muito abaixo das expectativas e fracassaram. Assim como os mísseis Patriot eram o cocô do cavalo do bandido, tudo indica, claro, que civis e hospitais foram bombardeados SIM. Mas adivinha o que ficou na memória da opinião pública internacional, que vê TV e lê jornais, que se acha, por isto, tão informada e descolada, mas que só se lembra mesmo do capítulo de ontem da novela e do show politicamente correto do U-2?...

A queda do Iraque

Mais recentemente, como todo mundo sabe, os EUA invadiram o Iraque, com o pretexto de procurar por armas de destruição em massa, que Saddam teria e não queria entregar à ONU, armas proibidas pela Convenção de Genebra. Capturaram Saddam Hussein (que posteriormente foi executado) e ocuparam o país, recebidos como salvadores pelo povo iraquiano. Mas hoje esses salvadores não saem mais do Iraque e são simplesmente odiados pelo mesmo povo que Hussein oprimia e que os recebeu tão entusiasticamente.


O chamado "mundo livre"
consegue, finalmente, tirar Saddam do caminho
de seus campos de petróleo


O engraçado (se não fosse trágico) é que, da mesma forma que o desmentido microscópico sobre os milagrosos mísseis americanos, uma outra nota foi publicada na mídia, também sem grande destaque, dando conta de que as famosas e temidas armas de destruição em massa de Saddam Hussein jamais existiram. Foram invenção de um determinado opositor de Saddam, para forçar o Ocidente a depô-lo. O próprio inventor do boato, da falsa denúncia, foi quem confessou isto à imprensa internacional, e o fez alegremente, sem reprimendas da parte de quem quer que fosse, justificando a mentira pela “necessidade” de tirar Saddam Hussein do poder. E a seríssima ONU organizou visitas ao Iraque, em busca das tais armas, baseada unicamente num boato. Pode um negócio desses?

As “revoltas populares” do norte da África

Agora, como peças de dominó, começa a cair, sob supostas revoluções populares, uma série de países árabes, até chegar à Líbia do coronel Khadafi, a quem se quer depor pelo menos desde o governo Reagan, nos anos 80 do século passado. Naquelas tentativas, valeu tudo. Até acusar Khadafi de qualquer atentado terrorista, praticado em qualquer parte do mundo, como o da discoteca na Alemanha Ocidental, freqüentada por soldados americanos, mesmo que, depois de se bombardear a Líbia, matando-se muitas pessoas - dentre elas pelo menos uma criança, Hannah, filha de Khadafi - tenha-se admitido não haver evidências de que o atentado tenha sido realmente obra do líder árabe.

Incrível como, agora, de uns meses pra cá, tudo aconteça tão certinho. Como os “levantes populares” dão-se em seqüência, de forma tão organizada. Organizada como não são, como jamais foram os povos daquela região, que se dividem em tribos rivais dentro de seus próprios países, com diferenças seculares entre si, e mais ainda em relação a outras nações. Essas e outras coisas curiosas precisavam fazer a gente pensar pelo menos um pouco, antes de sair assinando, revoltados, petições para isso ou aquilo.


Khadafi na época da tomada do poder, e Khadafi hoje


Não lhes parece curioso, por exemplo, que Osni Mubarak, do Egito, tenha sido por tanto tempo mimado pelo Ocidente, que o chamava de "Presidente Mubarak", mesmo estando ele havia tanto tempo no poder, e que agora, de repente, a mídia do mundo inteiro tenha passado a chamá-lo de "ditador do Egito", assim sem mais nem menos?

Não lhes parece também curioso, que o Irã - tão democrático quanto o salto do meu sapato - esteja "dando força" e elogiando a "resistência dos povos contra opressores", logo ele, Irã, que sempre odiou Kadhafi e sempre, desde o início da pretensa "revolução" islâmica, tem oprimido o seu próprio povo, enforcado homossexuais, fuzilado mujahedins e mulheres em luta pelos seus direitos, e apedrejado adúlteros supostos ou reais?

Não lhes parece curioso, ainda, que esses povos, de forma tão "espontânea", tenham se sublevado pela democracia, inclusive na Líbia, e, de repente, a mídia esteja dizendo que os "cidadãos comuns" conseguiram uniformes e armas, tudo isto pela ação de desertores do antigo regime? Não lhes parece estranho a mídia, num momento dizendo que é o homem comum, o povão, que está se sublevando, e no momento seguinte citar o nome desta ou daquela cidade como "a sede do comando rebelde"? Não lhes parece estranho que tantos deles usem o barrete afegão?...



A guarda pessoal de Khadafi,
composta exclusivamente de mulheres
(EPA - Mike Nelson)


Não vou defender Kadhafi, embora eu já o tenha admirado em alguns aspectos. Por sua capacidade de liderança que derrubou o rei Idris, fantoche do Ocidente, e cujos abusos ninguém do lado de cá do mundo via com maus olhos, por motivos óbvios. Pelo seu extraordinário Livro Verde – tratado político, econômico e social, que prima pela democracia direta, enquanto denuncia que “toda representação é uma impostura”. Por sua pertença à nobre tradição sufi – no caso a Ordem Sanusi, em seu ramo mais libertário, que renega até os mestres tão comuns no sufismo ortodoxo, e prega que o fiel deve ser iniciado por sua própria consciência e mais ninguém... Não, não vou defender Khadafi. Quem me garante que ele não traiu a espiritualidade sufi? Quem pode me afirmar que ele realmente cumpriu, na prática, o que ele próprio pregava no Livro Verde? O que me assegura que ele é totalmente inocente de tudo que o Ocidente o tem acusado já há tanto tempo? Já há muito que aprendi a reconhecer os homens não por suas intenções, mas por suas ações concretas. Não. Não vou vou defender Kadhafi.


O discutido Livro Verde, de Khadafi:
base teórica - política, social e econômica -
da 'República das Massas', preconizada
pelo líder Líbio


Apenas me nego a acreditar automaticamente nos “mocinhos” deste filme. Se não ponho a mão no fogo por alguém que até há pouco tempo admirava, porque o faria por aqueles em quem nunca sequer confiei? Já viu, né? Os EUA estão armando os rebeldes, contra Muammar Khadafi, da mesma forma que armaram os guerrilheiros e mercernários afegãos, e Osama Bin Laden, contra os soviéticos, e o Hamas, contra a Fatah e a OLP. Vejam o que sobrou, como monstruosos e bastardos filhos desses casamentos.

O que tem por trás disso é barra-pesadíssima, e isto vai ficar claro a médio prazo.

Nós já perdemos o direito à inocência, amiguinhos.

Ou então... sei lá, esqueçam...



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Pássaros


                                                                    Goya
                

                          Confundir um pássaro que se julga livre
                          com noites bruscas e canções de ódios inocentes:

                          nada mal para tua sobrevivência.

                         Mas tua sobrevivência
                         em quartos vazios, metralhados antes
                                                                             de tua chegada,
                         acreditava-se isenta de pássaros
                         e possuidora das armas dos irmãos
                         que não sabem que tu existes,
                         nem que os observas de dentro
                         de teu frio.

                         Teu sono povoado de poetas do ópio
                         atrai aves sementeiras e sem nome
                         — vindas de estrelas próximas e países distantes —
                         que morrem pelo caminho,
                         ou se perdem pelos pântanos,
                                                                durante a madrugada.

                         Surpreender um sobrevivente
                         com repentino despertar
                         é tolice que te custa caro
                         e desnuda tuas canções de infância e morte.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Vitor Belfort VS Anderson Silva



Por quem torcer?

Tem muita gente que fica confusa e até desapontada comigo, quando sabe que eu gosto de MMA (Mixed Martial Arts), que nada mais é do que o nosso antigo ‘Vale-Tudo’, devidamente industrializado, comercializado e elevado à categoria de esporte emergente, nos EUA. Fazer o que? Não sou chegado ao futebol, nunca fui. E violência por violência, prefiro aquela sincera, sem disfarces, mas elegante e bela, sob controle e dentro de um código de honra, como é a praticada marcialmente nos eventos de Vale-Tudo, do que a desenvolvida “crocodilianamente” nos campos de futebol, fora do contexto, e com prolongamentos para os arredores dos estádios. É razoavelmente rara a pancadaria de torcidas dos eventos de Vale-Tudo... Neles, a briga não é briga, é luta, e ocorre dentro dos ringues e octógonos. E pronto. Ficamos melhor assim.
Muitos daqueles que sentiam aflição, quando me viam torcendo pela TV, em torno de lutas clássicas — como as do quase mitológico Rickson Gracie, no Japão, de Wanderley “Cachorro Louco” Silva, Alexandre Pequeno e Jacaré, também na terra do sol nascente, ou de Minotauro, Minotouro, Carlão Barreto e Vitor Belfort, na Inglaterra, Japão e EUA, e, mais recentemente, Lyoto Machida, Thales Leites, Tiago Silva, Tiago Alves, Shogum e Anderson Silva, na terra do Tio Sam (todos brazucas) — passaram a admirar os lutadores e sua arte, com apenas uma ou duas olhadinhas nos combates, a meu convite. Lembro-me de uma namorada que, aflitíssima, perguntou-me como eu tinha coragem de assistir aquilo, logo eu, que era um cara sensível, do bem, artista, escritor, etc. Era uma luta de Royler Gracie, contra um estadunidense cujo nome não me lembro agora. Convidei-a a ver alguns momentos do combate, para entender melhor o porquê do meu interesse. Ela sentou-se ao meu lado, aflita, e a meio de caminho, ainda se afligia, mas aí já torcendo pelo mais técnico e mais elegante da família Gracie. E quando ele finalizou o oponente com um arm lock, ela simplesmente fez um oooh!!!! , enquanto arregalava os olhos, completando depois com um bonito isso aí, cara...


Já minha irmã, Verinha, a princípio também perplexa com meu interesse nos combates livres, aceitou meu convite para assistir a uma luta... a partir da qual viu uma segunda, uma terceira, e terminou assinando um canal de TV especializado em esportes marciais. Hoje, ela está mais por dentro do que eu, e conhece a maior parte do jargão de lutas, qual lutador é mais ou menos técnico, acompanhando fielmente o melhor dos campeonatos, sem descuidar de ver os programas de comentários, e comentar, ela própria, as lutas e até as bobagens que, algumas vezes, quase nocauteiam a gente, vindas de alguns comentaristas que nem sempre sabem muito o que falar, e dizem qualquer nota, nos intervalos dos socos, chutes, chaves e quedas.

Embora os eventos de vale-tudo tenham tido início no Brasil e se desenvolvido no Japão, o maior evento mundial de MMA é o Ultimate Fighting Championship, criado nos EUA, nos anos 1990, por Rorion Gracie, o maior empreendendor da família criadora do estilo brasileiro de ju-jutsu, hoje conhecido e reconhecido como Brazilian Jiu-Jitsu (BJJ), ou Gracie Jiu-Jitsu. De início, os brasileiros ganhavam praticamente todas as edições, principalmente por causa do Jiu-Jitsu dos Gracie, que os americanos, ingleses, franceses, russos, japoneses, ninguém entendia direito o que era. Com o tempo, os gringos foram pegando a manha, vendo os vídeos de BJJ, e eles mesmos praticando a chamada arte suave, de modo que a coisa das vitórias retumbantes meio que se democratizaram. Os brasileiros continuaram destacados nos combates, mas agora sem aquela exclusividade dos primeiros tempos.

Carlson Gracie contra Waldemar Santana
nos momentos pioneiros e heróicos do Vale-Tudo brasileiro

O evento evoluiu, tornou-se mais vendável. De campeonato por chaves que era, sem luvas ou categorias de peso, e extremamente violento, passou a evento de lutas casadas, organizado por categorias, utilizando as luvas de dedos (40 onças) e se transformando no esporte que mais cresce nos Estados Unidos. Inclusive freqüentado por celebridades de outras modalidades esportivas, e até do teatro, do cinema, da literatura, e outros quetais. A essas alturas, Rorion Gracie já havia vendido a sua parte no Ultimate, e no final da história ficou tudo sob a presidência de Dana White, o homem de gênio que deu ao campeonato free style mais famoso do mundo o seu formato atual, palatável, altamente vendável , respeitável e milionário.

 Sempre gostei de vale-tudo, e isto desde menino, quando via as lutas de Carlson Gracie contra desafiantes estrangeiros, no Maracanãzinho, ou os Heróis do Ringue, na antiga TV Continental, canal 9 e na TV Rio, canal 13. Eu era menino, nessa época, por volta dos oito anos de idade. Meu irmão, Julio, dois anos mais velho, praticava judô. Depois, em casa, treinava comigo, ensinando-me um judô “mexido” e não muito “cavalheiresco”, que logo batizamos “Jiu-Julio”, e usamos muito, pra lutar entre nós (“à brinca ou à vera”), e que pra mim teve grande validade pra me defender dos provocadores, na escola. Coisa de menino mesmo...

Rickson Gracie sobre Bud Smith
no Japan Open

Ultimamente não tenho acompanhado muito os eventos de Vale-Tudo. Verinha é que é a torcedora de plantão, de modo que é ela quem me informa, de tempos em tempos, a respeito do ranking atualizado, das subidas e descidas dos melhores lutadores (brasileiros ou não) e de quem está de posse do cinturão de qual categoria.

Foi por Verinha mesmo que fiquei sabendo de uma luta, que acontecerá na madrugada deste domingo, envolvendo dois dos melhores e maiores lutadores de MMA de todos os tempos: Vitor Belfort e Anderson Silva. Enquanto o evento não chegava, eu adiava uma decisão importante, que era escolher pra quem eu iria torcer. Como ficamos sabendo disso no ano passado, há alguns bons meses, deixei a coisa rolar. “A luta é só em fevereiro do ano que vem”, eu pensava, e não me preocupava mais com aquilo.

Royler Gracie finalizando Asahi
no Japan Open III

Acontece que o ano que vem chegou. E com ele, logo logo, fevereiro e a luta... Mas quem disse que eu consegui tomar uma decisão? Sou (muito) fã dos dois e ambos são carne de pescoço (ou casca-grossíssima, como se diz nos eventos de MMA). De modo que fico sem saber por quem torcer. E dá mesmo pra escolher? Olha só...


Vitor Belfort, trinta e cinco anos incompletos, peso médio, começou a lutar muito jovem. Aos dezenove anos já era considerado um fenômeno e estreeou no MMA internacional, derrotando Jon Hesse, no SuperBrawl, nocauteando-o nos primeiros doze segundos de luta. Transferiu-se depois para o Ultimate Fighting, conquistando uma série de espetaculares vitórias, e sofrendo poucas derrotas em sua carreira. Passou por problemas bastante graves, de ordem familiar, e andou afastado dos ringues e octógonos, voltando a lutar depois na Inglaterra, no hoje extinto Cage Rage. De lá para cá, vem treinando para voltar em grande estilo à carreira. Sua forma de lutar sempre foi impactante. Profundo conhecedor da luta de solo, por meio do BJJ que lhe foi transmitido pelo lendário Carlson Gracie, ele, no entanto, prefere utilizar os punhos extremamente rápidos e afiados (é especialista também em boxe inglês), em geral levando o adversário ao solo, para nocauteá-lo com golpes demolidores, rapidíssimos e muito precisos.



Anderson Silva, trinta e sete anos incompletos, vem da Chute-Boxe, uma academia de Curitiba que deu origem a alguns dos maiores compeões do mundo, como Wanderley “Cachorro Louco” Silva, por exemplo, que fez fama no Japão e foi o único brasileiro a derrotar Sakuraba, o japonês que nenhum brasileiro conseguira “botar pra baixo” antes. Anderson tem um estilo único. Elegante — especialista no Muay Thai, o temível boxe tailandês — braços e pernas longas (que contribuíram para o seu apelido Spider), luta como se dançasse. O combate mais violento vê sempre Anderson Silva como um bailarino que movimenta-se com uma leveza e elegância que surpreendem pela rapidez e impacto, com os quais o jovem brasileiro negro, de origem humilde, põe pra dormir os bem nutridos estadunidenses, japoneses, europeus, e quem mais conseguir chegar perto dele, no ranking dos pesos médios e no ringue. É talvez o único lutador que consegue manter a coreografia cinematográfica nos combates em que realmente se golpeia e derruba, sem ficção. É o detentor invicto do cinturão da categoria. Mas, vez por outra, deu-se ao luxo de ganhar peso, para enfrentar, em combates sem valer cinturões, lutadores bem mais pesados do que ele, vencê-los e voltar a seu peso, para defender o cinturão dos médios, contra ousados mas frustrados desafiantes.

Nesta madruga, por volta da 1h da manhã, no canal Combat Sport e, talvez, no Sport TV, esses dois gigantes das arte marciais mistas enfrentam-se no octagon do Ultimate, montado desta vez em Las Vegas. Por qual deles você torceria? Qual deles você esperaria vencer, para celebrar a vitória que só os gênios do combate, semi-deuses das artes marciais, conseguem conquistar?

Eu ainda não sei. Até lá, ou até daqui a pouco (o evento está começando), se eu não me decidir, que vença o melhor. Pelo menos o melhor da noite, porque, mesmo ao final do combate, dificilmente saberemos qual desses dois guerreiros é realmente o melhor.

 (...)

E deu... Anderson Silva!

Spider vence mais uma vez,
mantém o cobiçado cinturão dos pesos médios
e o título de melhor do mundo, peso a peso



Sabe que eu fiquei surpreso? Fiquei mesmo. E não foi pelo Vitor ter perdido não. Isso aí era uma incógnita. Ainda que The Spider fosse o favorito, Belfort tinha condições de derrotá-lo, sem dúvida. Mas poderia também ser derrotado, ninguém sabia o que iria acontecer. Minha surpresa foi no como a coisa aconteceu.


Iniciada a luta, os dois ficaram tempo demais se estudando, a ponto de levar o comentarista a dizer o que todo mundo já estava pensando: que a luta poderia surpreender e ser aquele combate chocho, em que ninguém toma a iniciativa, e ficam ambos tentando acumular pontos. O público, em Las Vegas, talvez tenha pensado o mesmo, porque embora tenha aplaudido a ambos, quando de sua entrada, agora começava a ensaiar uma vaia impaciente de quem quer ver luta e sabe que quem está no octógono é de ação e não de hesitação.


Belfort tomou a iniciativa,chutando Silva, e chegando a acertar-lhe um soco no rosto. Depois levou-o ao chão, golpeando-o rapidamente, mas sem muito sucesso. Spider não se impressionou com aquilo. Levantou-se rapidamente e continuou estudando o adversário. Só agora a gente vê que ele estava era sentindo a distância média em que deveria atuar.


Se era isso ou não, a gente não tem certeza. Mas o fato é que, antes dos quatro minutos do primeiro round, Anderson Silva chutou pra frente, com a canhota e simplesmente nocauteou o desafiante. Fim de luta.


É aí que eu me surpreendo. Rápido demais. No final da história, o dançarino nocauteou sem firulas o adversário, que é conhecido por ser dos lutadores mais rápidos e objetivos do mundo.


Mais uma vitória para o grande campeão, que mantém o cinturão, contra tudo e contra todos, e continua sendo, como insiste em afirmar the boss Dana White, o melhor lutador peso a peso (em todas as categorias) do mundo, em todos os tempos.


Evoé, Anderson!