domingo, 1 de novembro de 2009

Bom-dia, mulher




                          Bom-dia, mulher.
                          Resgato-te da noite
                          de nobres falidos,
                          jovens cegos de paixão
                          & facas traiçoeiras
                          dos portos de Hong-Kong.

                          Faço-te testemunha
                          da doce violência
                          de tua própria vida,
                          parindo mutantes
                          em meio a tardes mornas de seda
                          vinho & amargura.

                          Nada do que conheces
                          me ficará oculto um dia.

                         Limpo minhas armas,
                         satisfeito na familiaridade
                         da tua nudez,
                         adentro os templos
                         transformado em mulher
                         & vejo-te homem
                         pouco antes de transmutarmo-nos
                         em criatura sem nome, forma
                         ou história.

                         Soa, precisa e fatal,
                         a hora de encontrar-te,
                         agonizante e ressurrecta,
                         abandonando roupas putrefatas
                         nas estradas.

                         Vestes, é certo,
                         o uniforme da mais-valia
                         dada pela opressão que inventa
                         uma irônica liberdade
                         da qual padecemos.

                         Mas, clandestina,
                         dão-te nas sombras
                         a palavra de passe da insurreição,
                         a vocação de mulher armada
                         & combatente no Deserto,
                         tomando de assalto, um dia,
                         as fábricas & o Reino.

                        Vagas nos bosques,
                         em busca de uma cabana,
                         mantas de pele de urso
                         & véus negros & sabres perdidos
                         nas dobras do tempo
                         & de tua consciência.

                         Mas tua presença é bailarina,
                         recebendo-me sôfrega
                         nos salões de delícia do Inferno,
                         adormecendo cansada de um dia de opressão,
                         nuvem translúcida
                         curando leprosos nos hospitais da Índia.

                         Anseio ver-te cega na Estrada de Damasco.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mais três poemas

O Anjo e o Dragão - Trilogia





Canção Primeira - Na Noite Em Que Te Vi

De como o Dragão descobre o Anjo, e o que por ele há em seu coração.  Dividido entre a paixão e a fuga daquilo que sente, o Dragão perde-se na noite
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Na noite em que te vi,
toda a casa percorria mares
e, inquieta, a própria escuridão
sentiu fome daquilo que oculto
e roeu-me o peito
em busca do que não conhece.



Naquela noite, reneguei a poesia,
e caminhei trôpego por corredores
que me levam, cuidadosamente,
a lugar nenhum.


Procurei pelo milho e não o encontrei.
Vi claramente janelas abertas
para cegar-me;
mirei olhos de água pura,
senti entranhas onde quis amanhecer,
e que se fazem minhas,
para que eu jamais as possa possuir.


Na noite em que te vi,
quis gritar de dor pelo tesouro encontrado,
mas não consegui,
e uma pequena fada de asas negras
invadiu meu quarto
e afagou-me os cabelos para que eu dormisse.


Na noite em que te vi,
desejei fechar-me para a tua luz,
quis poupar de olhos inocentes
a visão inevitável do escândalo
e evitar minhas garras em tua pele luminosa.


Mas abriu-se sobre mim uma porta antiga,
e esticando em silêncio minhas asas,
sobrevoei perdido a cidade adormecida,
e procurei por ti, sem te encontrar.



Canção Segunda - Acordou-me Uma Canção Distante

De como o Anjo desaparece, em fuga do Dragão, e este é despertado por uma canção.  O vôo do Dragão em busca do Anjo, que o renega.  A prisão paralisante do Dragão. O redespertar e a busca. O Encontro.

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Acordou-me uma canção distante.
E me vi voando livre
sobre os campos largos do bom-senso e da sanidade.


Logo ultrapassei fronteiras.
E, perdido de tudo o que havia entendido,
cheguei a uma terra estranha
onde uma voz amada me cantava uma canção proscrita.

Eu não conhecia aquela voz,
mas meu coração sabia.
Era um anjo noturno, uma criança perdida
que pressentia meu vôo cego à sua procura.

Um poema que sempre amei.
Presente antigo, luminoso como a lua cheia.
Promessa do Espírito,
conhecida por meus dentes
e pela vocação do corpo.


Quando quis pousar,
uma sombra escura e fria a abraçou
e a levou de mim.
Alcancei junto à floresta o medo em forma luminosa,
irremediavelmente só e triste.
E ela me negou, e me fez perdê-la pela segunda vez.


Pousado sobre a catedral, silenciei.
E a memória de mil noites passadas
fez-me sabê-la em algum ponto da floresta
que eu não podia alcançar.


Renegado pela boca do anjo,
fiquei dele prisioneiro, e não pude me mover.


Foi numa noite imprevista
que novamente ouvi a canção.
Ela chegou a meus ouvidos ainda perdida,
como gritos,
e trouxe ao peito a opressão de um medo
que eu não conhecia.


Quando pude voar, dei com olhos de água pura
que miravam os meus.
Não como se perguntassem coisas,
nem como se quisessem entender meu vôo até ali.
Mas simplesmente entrando em mim
e devolvendo aquilo que me pertencia.


E então, como se conhecesse
cada um de meus gestos,
abriu minha promessa as suas próprias asas,
e fez-se maior do que eu a havia percebido.

A boca colou-se à minha, suavemente,
e prendeu-me a si,
confirmando a canção
que me havia despertado um dia.


Naquela noite amei-a intensamente.
E olhando a luz que nela me sorria,
conheci, enfim, a marca de meu vôo,
e cantei a canção que, antes, só ouvia.



Canção Derradeira - Em Pleno Vôo Um Frio Intenso


De como sutiliza-se o Anjo, sufoca-se o Dragão,  e ambos perdem-se um do outro, para sempre

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Em pleno vôo um frio intenso
acordou-me à noite de repente.


Senti morder-me o peito um eidolon furioso.
E a dor suave, mas profunda,
tinha o sabor inequívoco do beijo
que adormece sem consolo os enforcados.


Percebi à minha frente um anjo nu,
a pele luminosa despojada de encontros,
a alma aliviada na ausência de meu beijo,
o coração liberto do que ele acreditava
um sonho vão.


Vi então que lhe era amargo o meu presente.
Que, ao longo dos caminhos,
livrou-se o anjo aos poucos de uma historia,
e que as dores que eu sentia me invadirem lentamente
eram escamas deixadas ao acaso,
num caminho progressivo de silêncio e letargia.


Quando tentei tocá-lo,
tocaram o vazio as minhas garras.
E o coração do anjo era lugar nenhum,
onde habitavam distância, solidão e esquecimento.


Sufocado, gritei o nome desse anjo.
E ele, como que num gesto quase inexistente,
fez-me ver além de si,
como se ali não estivesse,
ou como se, lentamente, me perdesse.

sábado, 26 de setembro de 2009

Mais sobre a Orquídea Negra

Alguns amigos, que leram atentamente Apaixonado sim... Mas sem prometer nada, estranharam a minha conversa sobre a paixão. Intrigaram-se, sobretudo, com a idéia da paixão como uma overdose de drogas endógenas e, talvez mais ainda, o nome Orquídea Negra, com que batizei esse coquetel alucinógeno que nos tira do eixo, quando estamos apaixonados. Questionaram também, embora divertidamente, a minha idéia do encantamento como substituto mais saudável para a paixão.
Marquinho, zombou de mim, amigavelmente, Yara, uma querida amiga aqui do Rio, você continua apaixonado, e apenas inventou outro nome para a paixão.


Mas não. Não foi à toa que dei o nome de Orquídea Negra a esse complexo químico/anímico/amoroso, e até passei a dica do conceito, quando sugeri que ouvissem a canção de mesmo nome, de Zé Ramalho e Jorge Mautner, interpretada tão carismaticamente pelo primeiro. É só ouvir a música e tudo se explica.

O encantamento, eu não o inventei. Apenas o descobrí, confessadamente perplexo, por ocasião do assombramento referido em Apaixonado sim... Ele não tem esses ingredientes tão dramáticos, como bem sabe outra amiga, Luciene, de São Paulo, que usou do termo e do conceito, como algo melhor e acima da paixão, em uma troca filosófica de idéias, que teve início antes mesmo que eu criasse este blog.

Deixo a cada um a sua escolha, a sua opinião. Ouça, cético amigo, cética amiga, Orquídea Negra, que eu postei abaixo, e veja se à poderosa e suave força do encantamento poderia ser debitada tanta e tão bela dor...


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Três poemas



Embuçado

Surpreender minha dor de forasteiro,
foi tua marca admirável,
percebida nas noites em que Deus
brinca de não existir;
redescoberta nos minutos miseráveis
do meu absurdo.

Cada palavra, cada pensamento que me foge, vou buscá-lo em tí,
que dormes companheira de um menino amado,
feliz & proscrito.

E, na verdade, cada ilusão perdida e inútil
vai alimentar teu corpo magro
e dar brilho aos teus olhos.

Tu és aquela que repousa,
pronta & logo satisfeita,
livre do que não conhece.

E, quanto a mim,
sou aquele que te espera velado numa esquina noturna,
armado de serena paixão.


Amar-te é traição.


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Virei-me de repente e vi


Virei-me de repente e ví.
Da floresta saiu uma sombra,
da qual até agora só distingo
os olhos, o nariz e a boca.

Logo flutua em minha direção, e invade
o ar fresco da noite
com um aroma secreto de mandrágora e verbena.

Um anjo pelo avesso
que anuncia-me a mim mesmo,
dragão encarnado em homem,
ferido de morte pelo hálito de Hermanúbis.


Deixo-me levar por sua mão, que já percebo,
a reinos distantes, onde agoniza
a amada voz do Egito
e agita-se por dentro minha luz
e minha história.


Procuro no corpo uma adaga já perdida
e reajo desarmado,
beijando a bôca desse anjo,
que abandona-se ao contato
e cospe-me nos lábios palavras que não compreendo.


Dou-me todo, com temor, a essa sombra,
e viajo rápido,
rumo a espaços insondáveis,
onde ela me joga,
me mata,
e me pede socorro.

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Paixão


A paixão é uma alma errante,
Sorriso fácil e graves olhos;
Ascencionadas coxas

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Longa vida a Amy Winehouse!


Amy, em foto recente, ao sair de um julgamento
Acusada de agredir uma mulher, foi considerada inocente

Hoje é dia do aniversário de minha musa. A pequena daimon, Amy Winehouse, completa 26 anos de idade. A maior parte deles vivida de forma, no mínimo, transgressora e talentosa. Quem é amymaniac, como eu, fica muito contente em vê-la chegar até aqui, sobrevivendo à vida desregrada de auto-destruição que tem assumido nos últimos dois ou três anos. Vamos torcer pra ela se estabilizar mais, e finalmente lançar o seu terceiro álbum, que ficou meio a reboque de seu estilo de vida. Ela chegou a gravar um, inteirinho, durante suas prolongadas férias na Ilha de Santa Lucia, no Caribe. Mas a gravadora não aprovou. Amy abandonou suas levadas anteriores, e fez um disco todo à base do ska. Com um agravante (ao menos para os executivos da gravadora): as letras eram excessivamente depressivas. As últimas notícias dão conta de uma Amy trabalhando em outra proposta de CD.


Cantora profissional desde a adolescência, Amy é classificada pela crítica especializada como uma intérprete jazz/blues/soul. Atualmente tem cantado pouco jazz (cantou muito até 2004), e se dedicado mais a uma fase soul. Mas é um soul propositalmente datado, e que, de uma maneira geral, ainda é o mesmo jazz, mas disfarçado em outro andamento, e alguns poucos detalhes dos arranjos. Além disto, é um soul que tem mais a ver com aquele dos anos 1960, bem Motown mesmo, do que com o soul vestigial que se faz hoje. E é exatamente o clima neste Back to Black, que foi o carro-chefe e o título do segundo álbum da artista, e que a projetou mundialmente. Mesmo quem já conhece, talvez não tenha prestado atenção a certos detalhes importantes, sobretudo à melodia muito inspirada — abordagem tipicamente britânica da artista, que desamericanizou o soul — com um clima agressivo, mas triste, a harmonia lírica e pungente e o arranjo simplesmente soberbo, com uma levada Motown devidamente repaginada.


 O vídeo você pode ver aqui:

video

Ele mostra um funeral, com Amy atuando como a viúva. Na verdade é uma alegoria de separação, como fica bem claro na letra, em que ela fala de um namorado que voltou para a parceira anterior. Uma lógica bastante parecida com a de algumas brasileirinhas, que se referem a ex-namorados ou ex-maridos como o falecido. No vídeo há uma palavra que foi omitida, certamente por questões de censura. Em He left no time to regret / Kept his dick wet, a palavra dick simplesmente não é articulada pela diva, no som em si, embora apareça claramente nos movimentos da boca da cantora.  Atenção pra viradinha da guitarra old fashioned, discreta, mas expressiva, ainda no início da música; mais precisamente logo depois de My odds are stacked / I'll go back to black e introduzindo a frase We only said goodbye with words. O andamento  melancólico realça e valoriza imensamente a beleza da melodia, a voz de Amy e os arranjos primorosos.

Valeu, Amy! Estamos aguardando mais. Parabéns! Longa vida a Amy Winehouse!

domingo, 13 de setembro de 2009

Relaxe e seja gentil

A flor da ameixeira,
símbolo máximo do Clã Moy Yat
“Relaxe e seja gentil”, disse o Grão-Mestre Moy Yat, líder máximo da linhagem Moy, de Ving Tsun Kuen (Punhos da Canção em Louvor à Primavera), a uma platéia atônita, em um congresso de artes marciais, no ano de 1990, em São Paulo.

O espanto dos congressistas explica-se facilmente. O Ving Tsun Kuen é um sistema extremamente sofisticado de boxe chinês. Considerado uma das melhores formas de aplicação das artes marciais aos combates reais, é conhecido, em Hong Kong e na comunidade chinesa de Nova Iorque, como uma arte poderosa e rápida, boa para lutar e matar. Moy Yat, hoje falecido, via com desgosto essas definições. Para ele, o sistema pode ser realmente letal, mas é muito mais do que isto. “Ele é simples, gentil e tranqüilo”, dizia Moy.

A aparente contradição das palavras de Moy Yat pode nos esclarecer alguma coisa sobre este refinamento do espírito, que conhecemos e exercemos tão pouco: a gentileza. Normalmente compreendida como mero reflexo de educação esmerada, e freqüentemente confundida com fraqueza, ela é, em sua vocação mais profunda, manifestação de grandeza interior e maturidade consciencial. Na lógica do Ving Tsun, a violência é inversamente proporcional à eficácia. É gentilmente, portanto, que o boxeador do Ving Tsun resolve os conflitos. A verdadeira gentileza é aquela que existe no indivíduo como uma segunda natureza. Portanto, não é apenas nos momentos de paz e facilidade que ela pode dar o ar de sua graça. Aí pode prosperar também a falsa gentileza. Aquela letra morta, nascida como reles regra social, até certo ponto válida, mas, em essência, fria, vazia e sem vida.

Da mesma forma que o praticante do Ving Tsun resolve os conflitos com serenidade e combate relaxado e gentil — sua melhor vitória sendo quando ele não tem de lutar — nós mesmos, em nossa vida diária, podemos desenvolver mais a gentileza nos momentos difíceis, que é quando ela é realmente testada e pode demonstrar a sua autenticidade e sua real natureza. Ser gentil quando não apenas queremos agradar, ou conquistar, proteger, ou mesmo impressionar, mas nos momentos em que discordamos do outro, ou, de alguma outra forma, estamos em oposição e até em conflito em relação a ele, pode ser um sinal de que já conseguimos não apenas estar gentis, mas, sobretudo, ser gentis de coração.

Ser gentil, então — se considerarmos as sábias palavras de Moy Yat — é estar relaxado, descontraído e deixar o coração agir em direção ao outro, sob a égide da inteligência. Ser gentil, portanto, é ser inteligente, amoroso, mas, ao mesmo tempo, forte, determinado e, em algum nível, sábio. A gentileza é mais do que mera formalidade. É o amor verdadeiro que fala. Sem comiseração, sem frágil sentimentalismo. Mas com o sopro de espírito, autêntico e transformador, que fala de alma a alma, diretamente, numa promessa, ou, pelo menos, no anúncio da possibilidade de um dia chegarmos a ser realmente humanos por inteiro.